Quem planeja financiar um imóvel fora do Minha Casa Minha Vida provavelmente vai ter que esperar mais para encontrar taxas de juros menores. Com a Selic — a taxa básica de juros da economia — projetada para terminar 2026 em 13,25%, a expectativa de que o custo do financiamento habitacional para as classes média e alta pudesse cair abaixo do teto de 12% ao ano em 2027 começa a se frustrar. A avaliação é da Abecip, associação que representa as principais entidades de crédito imobiliário do país.
Para a entidade, o crédito imobiliário segue relativamente forte em 2026, especialmente no Minha Casa Minha Vida (MCMV), mas o ambiente macroeconômico passou a dificultar uma queda mais estrutural de juros do Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE), linha para imóveis acima de R$ 600 mil.
“O teto de 12% criado para essa nova política habitacional valia mais como uma referência para 2026. A expectativa era trabalhar abaixo disso no ano que vem. Se a gente entrar em 2027 com taxas de juros longas [taxas de mercado] acima desse nível, vira um ‘complicômetro’ para esse segmento”, afirmou Filipe Pontual, diretor executivo da Abecip.
Nos principais bancos brasileiros que atuam no financiamento imobiliário, a taxa de juros mais barata para imóveis que ficam fora do Minha Casa Minha Vida gira em torno de 11,7% ao ano, praticamente em linha com o teto da modalidade.
As projeções do mercado financeiro, captadas pelo boletim Focus, do Banco Central, indicam que a Selic deve terminar 2026 em 13,25%, de 14,5% ao ano atualmente. Em meados de fevereiro e março, a expectativa era bem mais positiva, de recuo até o nível de 12%.
Segundo Pontual, os bancos passaram a operar cada vez mais com um “blend” entre recursos da poupança, Letras de Crédito Imobiliário (LCI) e outros instrumentos financeiros para financiar crédito imobiliário para a população de renda mais alta. Embora a LCI tenha custo abaixo da Selic por causa da isenção do Imposto de Renda, ela ainda é mais cara do que a poupança tradicional, ele destaca.
“Quando se faz o blend entre poupança e LCI, por exemplo, a taxa acaba ficando muito perto de 12%”, disse Pontual. Com juros altos, a poupança, uma fonte mais barata de recursos para o setor imobiliário, tem apresentado mais saques do que depósitos. De janeiro a abril, os recursos da caderneta de poupança que abastecem o financiamento imobiliário registram saída de R$ 31,5 bilhões, resultado melhor do que em igual período de 2024, quando os saques superaram os depósitos em quase R$ 40 bilhões.
Na avaliação da Abecip, este cenário pode dificultar o acesso ao crédito para famílias de renda média e alta, exigindo entradas maiores e reduzindo o valor financiado. “Pode ser que as famílias tenham de fazer mais esforço, guardar mais dinheiro para entrada e trabalhar com um LTV [percentual do imóvel que pode ser financiado] menor”, afirmou. Os bancos podem financiar até 90% do valor de um imóvel a depender da modalidade – o que significa uma entrada de 10% – mas, em média, os consumidores conseguem com mais frequência financiar algo em torno de 60% a 70% do preço do imóvel.
Apesar da preocupação para 2027, a Abecip avalia que o mercado segue relativamente resiliente neste ano. No início de 2026, a entidade projetava crescimento de 15% nas operações de financiamento com recursos da poupança e de 35% no crédito com recursos do FGTS e diz que, por ora, não pretende revisar esses números.
Em 2025, o crédito imobiliário como um todo cresceu 3%, para R$ 324 bilhões, mas o financiamento de imóveis mais caros, via SBPE, caiu 13,4% em relação a 2024, para R$ 156,3 bilhões.
“O mercado está relativamente bem. O MCMV está indo muito bem, as construtoras especializadas estão produzindo bastante e há produção imobiliária importante em cidades como São Paulo e Rio”, afirmou Pontual.
O executivo destaca ainda o desempenho recente das operações de aquisição de imóveis com recursos da poupança, com R$ 12,6 bilhões em novas contratações no mês de março. “Fevereiro teve só 18 dias úteis por causa do Carnaval. Março já foi um mês mais normal”, disse.
Ao mesmo tempo, a entidade afirma que o setor já começa a observar sinais de desaceleração em alguns segmentos do mercado imobiliário, especialmente diante da alta dos custos da construção. É o caso dos lançamentos de imóveis em São Paulo, que recuaram 5% no primeiro trimestre de 2026 em relação ao mesmo período de 2025, segundo o Secovi. “O INCC está subindo mais do que se imaginava, então existe preocupação com custo”, afirmou.
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